Brasília, 03 de Setembro de 2010
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Escândalo da Receita é o Watergate do Governo Lula 02.09.2010

O vazamento em série de dados sigilosos de contribuintes na Receita Federal – com destaque para quatro tucanos, mais a filha de José Serra, Verônica – é o Watergate do governo Lula. Só que com aspectos mais graves que o original.


O escândalo de Watergate, ocorrido em 1972 - e que levou à renúncia do presidente dos EUA, Richard Nixon, dois anos depois -, envolvia espionagem política durante a sucessão presidencial.


Mas lá não houve o uso da máquina estatal. Foi um crime de um partido contra o outro. O Partido Republicano, do presidente e candidato à reeleição, tentou colocar microfones na sede do adversário, o Partido Democrata, para sabotar sua agenda de campanha. Havia conexões do ato com o presidente e assessores.


Constatada essa conexão, o presidente renunciou para não ser deposto. No caso presente, uma estrutura do Estado – a Receita Federal – foi usada para levantar dados sigilosos de contribuintes ligados ao PSDB e ao candidato Serra para a preparação de um dossiê que o incriminasse. Os dados de um dos tucanos – o
vice-presidente do partido, Eduardo Jorge – chegaram a ser publicados pela Folha de S. Paulo, que informou que constariam de um dossiê, em preparo pela seção de inteligência do PT.


Um ex-delegado da Polícia Federal, Onézimo de Souza, disse ao Senado que fora procurado por essa seção de inteligência e pela empresa incumbida da comunicação na campanha de Dilma para espionar José Serra. Dilma cancelou o contrato com a empresa, sinal de que viu fundamento na acusação. Até ali, o que se sabia era apenas isso: vazamento de dados de Eduardo Jorge e um dossiê contra Serra. Já era gravíssimo.


Adiante, soube-se mais: que outros três tucanos tiveram seus dados fiscais igualmente violados – em sequência, no mesmo dia e no mesmo computador da Receita. Depois, veio a denúncia de violação também contra a filha de Serra, vinculando definitivamente o escândalo à campanha. Isso já era perceptível pelo fato de que alguns blogs petistas na internet vinham veiculando há meses informações sigilosas de Verônica.


PT e Dilma insistem em tratar episódio como “factoide”


Dilma ainda insiste em minimizar o episódio, descolar-se dele e atribuir a Serra a tentativa de virar a mesa das eleições. Alega que, na época da violação – setembro do ano passado -, nem era candidata. Não era formalmente. Mas desde pelo menos 2008 que Lula já a vinha anunciando como sua sucessora. E as pesquisas mostravam Serra com ampla liderança.


Não bastasse, o PT tem ampla tradição no preparo de dossiês. Há duas semanas, preparou um contra si mesmo. Sua ala sindical tentou influir numa nomeação para o Banco do Brasil com um dossiê contra a filha do ministro Guido Mantega, da Fazenda – aliás, autoridade máxima sobre a Receita Federal, e que até não disse uma palavra sobre o escândalo.


O presidente do PT, José Eduardo Dutra, alheio à gravidade do caso, chama-o de “factoide”. Dilma faz o mesmo. E ambos, numa inversão singular, anunciam que vão à Justiça contra Serra.


Trata-se, porém, de um crime contra o Estado e a Constituição. A credibilidade de um dos órgãos vitais do Estado foi posta abaixo. O episódio expõe, num grau espantoso, a promiscuidade entre partido e Estado. Não se sabe em que medida repercutirá na campanha, mas uma coisa é certa: elevou de maneira irreversível o seu tom.
 


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