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A herança ambígua de Lula 05.02.2010

Ruy Fabiano

O papel de equilibrista que Lula protagoniza na cena política brasileira é raro e intransferível. Nesse sentido, reedita Getúlio Vargas, cuja trajetória assemelha-se à de um pêndulo, indo da esquerda à direita com a maior facilidade, confundindo quem quer que o queira definir ideologicamente.
 
Getúlio chegou ao poder em 1930, a bordo de uma revolução liberal, cuja agenda propunha, entre outras coisas, o voto secreto e o voto feminino. Uma vez empossado, não convocou eleições. Nem voto secreto, nem voto aberto; nem feminino, nem masculino.
 
Convocou, sob pressão de uma guerra civil – a revolução constitucionalista de São Paulo, em 1932 -, uma constituinte, cuja Carta foi a de mais escassa duração da história: três anos. Em 1937, deu um golpe, de índole fascista – o Estado Novo -, outorgando uma Constituição, que durou até 1945. Mandou o Brasil à guerra contra o fascismo, mesmo comandando aqui um governo fascista.
 
Não resistiu à contradição e foi deposto, depois do fracasso do movimento queremista, que, na tentativa de mantê-lo no poder, o levou a associar-se aos comunistas, que antes havia aprisionado.
 
Fracassou, mas indicou o seu sucessor, o general Eurico Dutra, criando ainda dois partidos antagônicos, PSD, ruralista e conservador, e PTB, sindicalista e destinado a absorver o discurso de esquerda.
Voltou ao poder pelo voto direto em 1950, a bordo dessa ambigüidade – e, ao rompê-la, em pleno reinado da Guerra Fria, sucumbiu às contradições que antes manejara.
 
Lula faz um jogo parecido, ajustado a outra conjuntura, mas cuja substância é a mesma: a gerência de antagonismos ideológicos. A síntese desse papel está dada pela recente performance em dois ambientes antípodas: o Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, de esquerda, e o Fórum Mundial de Davos, Suíça, que reúne governantes do Primeiro Mundo e expoentes do capitalismo.
 
Num, foi aplaudido de pé, a bordo de uma inflamada retórica esquerdista; noutro (a que não pôde comparecer, por razões de saúde), recebeu o título de Estadista do Ano de 2009.
 
A chave do equilibrismo está em sua popularidade, por todos temida. Nem a esquerda o descarta, apesar de contrariá-la mantendo a política econômica que herdou; nem os empresários o afrontam, devido ao papel de algodão entre cristais que representa junto aos movimentos sociais. Só que esse papel é intransferível. E provisório.
 
Em algum momento, como ocorreu com Getúlio, será preciso optar. E o vínculo visceral de Lula é com a esquerda, os movimentos sociais, o sindicalismo, dos quais é egresso. Deixou a opção para Dilma. Mas ela não expressa esse equilibrismo. Ela é a ruptura.
 
E isso está claro não apenas no 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, que tem suas digitais, mas igualmente no Programa Nacional de Desenvolvimento, ontem divulgado, um pré-projeto de governo da ministra, a ser submetido ao 4º Congresso Nacional do PT, de 18 a 20 de fevereiro.
 
O Programa é de teor estatizante e informa que Dilma estará à esquerda de Lula. Insiste em tachar de liberal o governo FHC, não obstante Lula o tenha preservado e aprofundado exatamente nos pontos em que o critica - as políticas econômica e monetária -, fator que lhe garantiu os índices que hoje exibe com justa euforia.
 
O Programa se propõe a manter e expandir a estratégia de conferências nacionais, que, em regra, reúnem a militância, sem a participação do contraditório. Os resultados, porém, são apresentados como expressão da vontade da sociedade civil.
 
O resultado é a controvérsia do PNDH 3, que pôs em guarda simultaneamente gigantes institucionais como Igreja Católica, ruralistas, mídia, Forças Armadas e Judiciário, para citar apenas alguns. O recado é claro: é hora de avançar.
 
Avançar, no caso, significa romper a ambiguidade de Lula e assumir com nitidez o projeto da esquerda.
 
Lula, que em 2002, teve que escrever a “Carta aos Brasileiros”, para deter a paranóia que sua eleição inspirava ao capital, serviu-o de tal forma que agora, via Dilma, para não perder aliados históricos, está tendo que escrever uma espécie de “Carta aos Companheiros”, que a tanto equivalem o PNDH 3 e o Programa Nacional de Desenvolvimento.
Ao que parece, acabou a era “Lulinha paz e amor”. Começou a hora da verdade. Melhor assim.
 

Ruy Fabiano é jornalista e escritor



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