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Lula sob a toga 17.05.2017

Gaudêncio Torquato*

O depoimento mais esperado do ano não teve um clímax. Luiz Inácio, o ex-presidente, não conseguiu a façanha expressiva que adota em palanque e o juiz Sérgio Moro não agiu como Mike Tyson dando uma dentada na orelha de Holyfield naquela famosa e sempre lembrada luta de 1996. Quem perdeu com a batalha de Itararé em Curitiba? As galeras que gostariam de se atracar, principalmente a militância petista, sempre aguerrida e ansiosa para ter, entre os seus, uma cara ensanguentada, que entraria na galeria das “vítimas da violência policial contra cidadãos ordeiros”. Primeira pergunta: Luiz Inácio conseguiu ser tão convincente que deixou o juiz Sérgio Moro no canto do ringue? Não. Mas a torcida petista acha que seu ídolo fez barba, cabelo e bigode.

Tentemos analisar o que se viu. Um juiz com a bola na mão e o apito na boca. Sereno. Não se afobou. Conduziu tecnicamente o jogo. Suas perguntas estavam calcadas principalmente nas delações de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS e amigo de Lula e Renato Duque, ex-diretor de produção da Petrobras e indicado para o cargo pelo PT. O ex-presidente, como mágico da prestidigitação no campo das palavras, saiu-se bem. Porém, sem os rompantes palanqueiros tão esperados pelos editores de imagem que devem reservar algumas passagens para a propaganda eleitoral, caso Lula seja ou não candidato. Luiz Inácio insistiu: o tríplex nunca foi dele. Marisa, a falecida esposa, é quem tinha interesse naquele imóvel. Lula conhece a regra do martelo: bata, bata, bata no mesmo prego e ele acabará fixando-se na parede ou, se quiserem, na cachola das massas.

O maior líder populista do país também não foi nocauteado. Nem mesmo foi ao canto do ringue. Titubeou, no início, mas foi ganhando confiança, até usando como bengala o bigode que servia de apoio para os dedos nervosos. Sobrou, e muito, para as expressões: “não sei, não soube, não sabia”. Usou a negativa 82 vezes. Dose exagerada. Que abre um oceano de dúvidas. Mais descontraído, puxou de leve o juiz Moro para a grande área do campo político: “quando o senhor for candidato”, vai saber o que é “força de expressão”. Tentou, sem sucesso, puxar Moro para a intimidade das famílias, ao sugerir que o filho não diz ao pai as notas baixas que tirou na Escola; A estocada veio logo: Moro garantiu que ele, sim, sabe das notas de seus filhos, inclusive as baixas. A insistência do juiz com algumas perguntas duras e diretas deixaram Lula irritado, ansioso, nervoso, inconsistente, emotivo, na análise de especialistas na análise de postura, gestos e expressões, que fizeram sua avaliação ao jornal O Globo desta sexta feira.

A postura de desconforto permitiu ao juiz apitar toda vez que achou necessário, principalmente quando percebeu que o protagonista saía pelas tabelas ou pelas veredas do sofisma. Moro não deixou que o ex-presidente fizesse ali um ensaio de propaganda eleitoral. Deu-se a ele o tratamento litúrgico de ex-presidente, uma forma de estabelecer um limite entre formalidade e informalidade. Logo, ele não poderia usar o tratamento de “você” aos procuradores, como tentou e foi advertido. Pelas bolas divididas e pelo tempo usado pelas partes e até pela polarização entre a ala que apoia a Lava Jato e o grupo que escuda Lula, pode-se considerar o jogo empatado. Cada lado dirá que ganhou. Aplausos e apupos recíprocos. A mídia massiva dará o tônus do debate, puxando uma brasinha para um aspecto ou para outro. Ao final do processo, viu-se um Lula ainda muito vivo, porém, alquebrado.

Destaques

Um momento de destaque foi a resposta de Lula sobre o encontro com Renato Duque em um hangar em Congonhas. Afinal, por que um ex-presidente quis se encontrar com um ex-diretor da Petrobras? Para saber se ele tinha depósitos em contas no exterior? Não era amigo dele, Duque. E por que usar João Vaccari, tesoureiro do PT, como intermediário desse encontro? Essas dúvidas certamente continuarão fortes no juízo de Sérgio Moro e dos ouvintes. Não se ouviu resposta convincente. Mas o destaque mais negativo se deu ao atribuir a dona Marisa (que “odiava praia”) o interesse por um triplex com mil defeitos. A falecida esposa, segundo Lula, pensava em adquirir o apartamento como investimento. Essa ideia caiu mal no sistema cognitivo dos ouvintes e certamente poderá vir a ser uma peça negativa de campanha eleitoral, mais adiante.

E quais serão os próximos passos? O caso seguirá seu curso naturalmente e o juiz Sérgio Moro deve aceitar a denúncia, abrir a fase de nova coleta de provas, ouvir mais testemunhas e proferir uma decisão, provavelmente até final de junho.

Lula será condenado? Essa é a pergunta mais recorrente na esfera política. Vale lembrar que o veto à eventual candidatura de Lula à presidência da República estará circunscrito a uma condenação em 2ª instância. O Tribunal Regional da 4ª Região tem dado endosso às condenações proferidas pela 1ª instância do juiz Sérgio Moro. Se essa tendência se confirmar, Moro condenaria Lula e veria sua decisão corroborada pela instância acima. Do ponto de vista político, isso não significaria a morte política de Luiz Inácio. Por quê? Porque ele ainda possui razoável estoque de carisma. E saberá usar o “vitimol”, o remédio que produz o efeito de atrair a atenção e a simpatia das massas.

Luiz Inácio já começou a lapidar seu perfil com a argamassa da vitimização. Essa é a vestimenta que vai usar seja como candidato seja como líder das oposições no pleito de 2018. Este consultor faz uma observação: melhor para Lula é a condição de comandante das oposições, em 2018, e não a de candidato. Argumentos: ele sairia da linha de tiro ao alvo; apareceria em comícios por todo o território, lembrando os feitos de seu governo e levantando o véu da nostalgia; poderia arregimentar forças na direção de um candidato de oposição. Afinal, trata-se dos raros quadros com capacidade de unir as oposições e unificar a linguagem. Sua capacidade de sensibilizar as massas - por via da mistificação – puxará para cima o tom emotivo de uma campanha oposicionista, com intensa mobilização da militância. Plantaria a semente de resgate do PT, podendo eleger uma bancada poderosa em 2018.

Já candidato, perderia a condição de favorito. Principalmente levando-se em consideração a retomada do crescimento do país.

*Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação.
 



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